Manifesto – Arquitectos pela reabilitação do Mercado do Bom Sucesso

foto de bricolage.108, Flickr

Em mais um sinal claro do repúdio sentido e manifestado por cidadãos do Porto, um conjunto de nomes que têm marcado a Arquitectura da cidade pronunciou-se a favor da requalificação do Mercado do Bom Sucesso, subscrevendo o seguinte texto:


1 –
Bom Sucesso faz sentido como mercado, mas não como centro comercial


A cidade do Porto precisa dos seus mercados para viver e se regenerar. A reabilitação de uma cidade faz-se na habitação, no espaço público e através do pequeno comércio de proximidade. A «alma do pequeno comércio popular» faz parte da alma desta cidade do Porto. Uma cidade cosmopolita precisa de mercados vivos. A zona da Boavista está saturada de centros comerciais, edifícios na grande maioria sem qualquer qualidade arquitectónica, estando alguns meio-ocupados, meio-abandonados há muito.


2- Transformar o mercado em centro comercial destrói a arquitectura do edifício


Inaugurado em 1952, o Mercado foi desenhado pelo colectivo ARS, a pedido do executivo camarário, para ser um «edifício que marque a sua época e o seu fim».

Pelo contrário, o projecto actual reflecte uma visão fachadista da Arquitectura, destruindo o que o edifício tem de melhor, o magnífico espaço interior.
Do que foi tornado público, sabemos que se pretende encher o interior com dois grandes volumes a cortar e ocupar o espaço central, quase encostados às suas fachadas envidraçadas. Fachadas concebidas como membranas transparentes de espaço e de luz de um lugar em forma de nave, vazio e sereno. O projecto pretendido adultera indelével e definitivamente este conceito, enchendo o interior com metros cúbicos de construção. É um atentado a um edifício modernista com um processo de classificação como património nacional já aprovado pelo IGESPAR e a aguardar conclusão. O que se está a preparar é não só a alteração do programa de mercado para centro comercial como a adulteração dum edifício histórico.

Não é mais concebível nesta cidade que se continue a apelidar  de «reabilitação» este tipo de intervenções. Re-habilitar é «tornar a habilitar para…». Este mercado precisa sim de se tornar a habilitar como edifício e na sua funcionalidade de mercado, tal como consta dos requisitos que fundamentaram o processo de classificação.

Pretendemos que o poder público tome em mãos um projecto de verdadeira reabilitação, resolvendo patologias construtivas, modernizando, enquadrando e rentabilizando o uso para mercado de frescos. Assim ficará digno de um uso público intenso, como já teve antes do abandono recente a que foi votado.

3 – Destruir um mercado para criar mais um centro comercial é empobrecer a qualidade e variedade da vivência urbana


Como profissionais de Arquitectura apelamos às instâncias publicas com a missão de defender o Património, nomeadamente ao Ministério da Cultura na pessoa da Srª Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, e ao Instituto para a Gestão e Defesa do Património, IGESPAR, no sentido de se pronunciarem e intervirem neste processo, em coerência com a classificação patrimonial, impedindo a  destruição do Mercado do Bom Sucesso.

Como cidadãos empenhados pretendemos que o edifício do Mercado continue «a marcar a sua época», através do respeito pelo património construído e classificado e que continue «marcar o seu fim» de mercado tradicional de frescos, sempre actual numa cidade viva.

Álvaro Siza Vieira

André Tavares

Francisco Barata Fernandes

José Gigante

José Pulido Valente

Manuel Correia Fernandes

Manuel Fernandes de Sá

Nicolau Brandão

Nuno Brandão Costa

Paula Santos

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9 responses to “Manifesto – Arquitectos pela reabilitação do Mercado do Bom Sucesso

  1. Manuel Leitão

    E o Balonas? O dos mamarrachos, incluindo o (mal) aprazado para a Praça de Lisboa – não assina?

  2. mercadobomsucesso

    Caro Manuel Leitão,
    O Movimento dirigiu-se apenas a alguns arquitectos da cidade do Porto. Como estrutura informal não nos seria possível ir além disto. Mas posso dizer-lhe que quase todos reponderam favoravelmente, de alguns simplesmente não conseguimos saber qualquer contacto. Mas neste mesmo momento o Arqº Souto Moura acaba de nos enviar o seu acordo também

  3. Dalila Santos

    É bom que finalmente se olhe para as coisas bonitas da nossa cidade.É altura de reabilitar o espaço e oferecer aos portuenses o seu mercado! Chega de centros comerciais! Olhem para Barcelona e vejam como são lindos os mercados, cheios de cor, de frutas, legumes, impecavelmente limpos, dá gosto passar lá, pegar num sumo (natural), numa salada de frutas, etc. e vir comer para o jardim (até poderia levar à reabilitação da “Rotunda”!!!), fazer as compras de frescos num sítio apropriado.

  4. Também sou arquitecta e não concordo com a alteração do uso do edifício. Mas, como não tenho nome na Arquitectura, não sei se o meu apoio vale alguma coisa… O que é preciso fazer? Projectos que venham nas revistas?

    • mercadobomsucesso

      Cara Arquitecta, em primeiro lugar o nosso agradecimento pelo seu apoio. Tod@s podem ajudar, em primeiro lugar assinando a petição que encontra aqui no blog e divulgando-a entre a sua rede de amigos. Depois, escrever numa revista seria ótimo. Desde que esta subscrição de arquitectos do Porto foi divulgada que o este movimento tem ganho novos apoiantes. Um artigo seu seria mais um contributo muito útil com certeza.
      E o Movimento Mercado do Bom Sucesso Vivo ainda tem outras ações de protesto previstas para o os próximos tempos.
      Aqui e nas Causas do Facebook iremos divulgando. Temos o seu contacto, pô-la-emos ao corrente.
      Ainda estamos a tempo de evitar este «culturicídio». A voz de tod@s conta!

  5. Quero apenas reforçar os argumentos acima descritos porque concordo inteiramente com eles. Aliás já há algum atrás tempo me manifestei com argumentos semelhantes.
    È um belo e elegante exemplo de arquitectura , leve , luminoso, que precisa talvez , na minha modesta opinião de que se faça o que já atrás foi escrito: um rearranjo e restauro do que está lá.

  6. Pingback: Siza Vieira e Souto Moura contra projecto de reabilitação do Bom Sucesso

  7. Pingback: Contrato de concessão da exploração adiado | Mercado do Bom Sucesso Vivo!

  8. Pingback: Slow City « Um pé no Porto e outro no pedal

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